Gen1 Stories
Gen1 Stories · Biografia Coral

Casei com a
Garota da Capa

a vida de Roberto Sebok,
contada por 23 vozes
Biografia · 12 capítulos

A vida inteira de um homem, contada por ele mesmo, do jeito que só ele sabe contar.

De um menino que ouviu Deus dentro de uma caverna escura a um avô de doze netos. Tecida a partir de mais de 550 áudios que a família trocou durante um ano difícil. Leia no seu ritmo, e ouça a voz original do Roberto dentro de cada capítulo.

23 vozes184 páginas9 min de leitura por capítuloÁudio na voz original

Para a garota da capa, que continua sendo a primeira página de tudo. E para os sete, e para os doze, que são a melhor coisa que estas mãos ajudaram a construir.

Há cavernas que a gente entra para se perder, e há cavernas que a gente entra para finalmente se encontrar. Eu tive a graça de entrar na segunda.

Capítulo dois
A Caverna do Diabo, onde encontrei Deus
Ouça o Roberto contar este capítulo
A voz original, gravada por WhatsApp aos 78 anos · 2:14

Eu tinha os meus vinte e poucos anos quando subimos a serra rumo a Eldorado Paulista, e me lembro de que a estrada cheirava a terra molhada e a folha pisada, daquele cheiro verde que o Vale do Ribeira tem e que nenhuma cidade conseguiu copiar. Fomos em um grupo de rapazes, mais por aventura do que por qualquer outra coisa.

O nome assustava, Caverna do Diabo, e a gente ria do nome para não sentir o frio que ele dava. Mas quando entramos, o riso ficou para trás na boca da gruta, junto com a luz do dia. dentro a escuridão não era a ausência de luz, era uma coisa com peso, uma coisa que encostava na pele. O barulho da água pingando ecoava como se a pedra estivesse respirando.

Eu me lembro do cheiro de mineral, úmido e antigo, e de uma gota fria que caiu exatamente na minha nuca e me fez parar. Foi ali, parado, um pouco para trás dos outros, que aconteceu. Eu simplesmente soube, com uma certeza que descia do alto da cabeça até a sola dos pés, que eu não estava sozinho naquele escuro. Não era medo. Era o contrário do medo.

As lágrimas vieram antes de eu entender que estava chorando. Chorei sozinho no escuro, e foi o choro mais limpo da minha vida. Quando saímos, a luz do dia me machucou os olhos, e eu fiquei ali piscando como quem nasce. O mundo estava igual. Mas eu não estava igual.

Hoje, velho, eu penso que Deus tem um senso de humor delicado. Escolheu uma gruta chamada Caverna do Diabo para vir conversar comigo. Talvez para me ensinar logo cedo que Ele não tem medo de lugar nenhum, e que a luz, quando quer, encontra o homem justamente onde o escuro é mais fundo.

Meu pai, aquele homem firme, a voz dele quebrou no meio do áudio. Eu entendi ali que estava recebendo uma herança.
Mario Sebok, filho, sobre o áudio da caverna
Capítulo três
A capa que mudou a minha vida

Foi numa banca de jornal, dessas de esquina, com o toldo desbotado e o cheiro de papel novo misturado ao de cigarro do jornaleiro. Eu tinha parado para comprar não me lembro mais o quê, e foi quando o meu olho bateu na capa daquela revista, pendurada com um prendedor de roupa numa cordinha, balançando de leve no vento. Era ela.

Eu não sabia o nome dela, não sabia a voz, não sabia nada, mas eu olhei para aquele rosto na capa e tive um pensamento absurdo, daqueles que a gente nem ousa dizer em voz alta: vou casar com essa moça. Ria de mim mesmo, é claro. Que rapaz são olha para uma capa de revista e decide o resto da vida? Mas o coração não pediu licença à razão.

Anos depois, quando já tínhamos filhos correndo pela casa, eu ainda guardava aquela revista numa gaveta. Às vezes a tirava de lá, mostrava para ela e brincava: olha, foi por isso. Ela fingia bronca, dizia que eu era exagerado, mas os olhos dela brilhavam, porque toda mulher quer saber que foi escolhida, e ela tinha sido escolhida antes mesmo de saber que existia um homem chamado Roberto pensando nela.

Eu costumo dizer que casei com a garota da capa, e as pessoas riem achando que é só uma frase bonita. Não é só. É a verdade mais literal da minha vida. Cinquenta anos depois, com o cabelo branco que o tempo nos deu de presente, eu olho para ela do outro lado da mesa do café e penso, todo santo dia, que a melhor decisão que tomei na vida eu tomei de pé, numa esquina, diante de uma revista balançando ao vento.

Um homem que ganhou dinheiro mas nunca confundiu dinheiro com riqueza. A riqueza dele sempre foi gente.
Antônio, colega de trabalho e parceiro na Uniconsult